Geral
Sem Comentários Estorinha escatológica
Era julho e, como em todos os anos, Paulinho fora para o interior do estado. Já estava acostumado com o frio da campanha naquela época. Os dias passavam com a mesma preguiça que aparentava aquele velho cusco, que se espreguiçava ao pé do fogo. Era onde o velho Juvêncio tomava seu mate, preparava seu cigarro e contava os causos para quem escolhesse compartilhar daquele fogo-de-chão.
Juvêncio, o Tiuê como era chamado pelas bandas das Missões (o velho [Tyyue] em Tupi-Guarani), era gaúcho sério, trabalhador e sábio. Não carneava borrego cansado, nem pagava trago para chinaredo de pouco respeito.
Nessas feitas, em torno do fogo, sorvendo seu mate e mordiscando um que outro pinhãozinho feito na chapa de ferro, observava seus três netos (Paulinho, José Henrique e Artur) que discutiam animadamente:
― Ahhh, eu queria ser uma mosca… Pequena e ágil. Podia entrar em qualquer lugar. Podia entrar no banheiro das gurias, ver todas peladinhas e não iam nem me notar. ― Disse o Artur.
Artur olha para o avô e pergunta: “Não seria uma boa, vô Tiuê?”.
O velho olha pro guri, pega o rebenque bem devagarito e PLÁÁÁÁ!!! Dá um rebencaço em cima de uma varejeira que se ensaiava nas voltas de umas linguiças penduradas para curtir. E diz, quase sussurrando com aquela voz de barítono: “Acho não guri. Seria muito perigoso!”, e guarda o rebenque.
Os outros dois riam do primo, imitavam o som de moscas e depois o som do rebenque… “Bzzzzzz, bzzzzz”, “Plááááá”, “Bziuuuu………”
Zé Henrique então diz: “Eu queria ser o mais rápido do mundo! Poderia correr tão rápido que as pessoas não me veriam. Entrar no banheiro das gurias ia ser mole.”.
E o avô, já sentindo fazer parte da conversa pergunta: “Escuta guri… mais rapido do que pensamento??”
Silêncio. Nem um pio!
Então, Paulinho vendo o Zé Henrique amuado, sente-se disposto a enfrentar o avô, e afirma:
― Eu queria ser invisível. Ninguém poderia me ver. Não precisaria ser nem rápido, nem pequenininho. Se não pudessem me ver, imagina então eu no banheiro das gurias? Bem quietinho, só olhando…
Juvêncio, percebendo a intenção do neto, segura a cuia com uma das mãos. A outra mão agarra o joelho e inclina-se para frente, para ficar mais perto do neto.
― Me diz uma coisa guri, e na hora de tu limpares a bunda.. Como ia ser?